Quinta-Feira da Ascensão

Ascensão
 
Da Páscoa à Ascensão, quarenta dias vão.
5ª-feira de Ascensão, seca-se a raíz ao pão.
No dia da Ascenção, não ponhas o pé no chão.
Se os passarinhos soubessem 
Quando era a Ascenção
Não comiam, nem bebiam
Nem punham os pés no chão.

A Nossa Senhora dos Remédios
 

Adeus, ó Casal da Serra
Daqui te vejo uma ponta
Vejo N.Senhora dos Remédios
A rezar por umas contas
Com os passarinhos do campo 
Eu me quero comparar
Dia da S. dos Remédios
Eles também a vão visitar.

Noutros tempos, Nossa Senhora dos Remédios em Quinta-Feira da Ascensão


A festa de Nossa Senhora dos Remédios é uma festa secular que se realiza anualmente, no domingo anterior à Ascensão.
Ontem, como hoje os Tortosendenses continuam a ser ardorosos devotos de Nossa Senhora dos Remédios, acorrendo em grande número à sua festa que se realiza, anualmente, no domingo anterior à Ascensão, na ermida situada num local bem aprazível e de onde se pode disfrutar um dos mais belos panoramas da região. Mas muitos são ainda aqueles que lembram, com saudade, o tempo em que a Festa de Nossa Senhora dos Remédios se realizava em quinta-feira da Ascensão, juntando a essa saudade uma certa mágoa pelo facto da festa ter mudado de dia, ainda antes da Ascensão ter deixado de ser dia santo de guarda, não encontrabdo assim justificação aceitável.

Todavia, a celebração da Festa nesta data era uma situação excepcionalíssima no país, não era um direito adquirido pelos tortosendenses, já que um dia destinado no calendário litúrgico cristão a uma celebração tão importante como a subida de Cristo ao Céu, para se encontrar novamente com o Pai, não deveria ser partilhada com qualquer outra "para que não perdesse de forma alguma o seu brilho". Assim sendo, todos os anos algum tempo antes da Festa, ia o Prior de então, reverendo Padre Ardérius, com elementos da comissão das Festas, pedir uma autorização especial ao Senhor Bispo da Guarda, "com o argumento de que era tradição a realização da festa nesse dia" e, ano a ano, acedia o digníssimo Prelado, correspondendo, desta forma, ao desejo do povo do Tortosendo.

Mas num determinado ano o senhor Prior, invocando "que a lei deveria ser cumprida e que em algum ano havia que começar", resolveu não ir à Guarda e decidiu que a festa passasse para o domingo seguinte. Não aceitou bem a Comissão de Festas tal decisão e demitiu-se, não obstando, no entanto, a que a mesma se celebrasse, por iniciativa do Pároco.
Estranhou o povo tal mudança e estranhou, mais ainda, o facto de, contrariamente ao que sempre acontecera, os campos e pinhais à volta da Capela estarem vedados, argumentando os proprietários que "era dos usos e costumes da região que as sementeiras se iniciassem logo após a Ascensão", pelo que os trabalhos já haviam sido iniciados, nesse ano. Facilmente esta dificuldade foi ultrapassada nos anos seguintes, pois passou, então, a Festa a ocorrer, no domingo anterior à Ascensão, para que os romeiros pudessem merendar livremente nos campos e pinhais circundantes.

O dia santo ainda continuou por algum tempo mas, mesmo depois de ser retirado, era ainda a sítio da Senhora dos Remédios um privilegiado lugar de convívio em Quinta-feira de Ascensão, dia esperado sempre com grande ansiedade. Com muito tempo de antecedência já o pessoal se interrogava: "-Quando é que este ano calha a 5ª feira de Ascensão?"
E as Comissões não se extinguiram, pois há prova documental de que outras se seguiram. Com muito empenho continuam a trabalhar os elemtos que constituem as actuais.
 

Ascensão, Dia Grande, Dia do Mais Rigoroso Descanso, Dia de Muito Respeito - A Hora


Por decreto de 11.01.1952 a Quinta-feira de Ascensão deixou de integrar o número de dias santos acerca dos quais " a igreja determina que devem ser consagrados a Deus com a obrigação de os fiéis participarem no sacrifício da missa e de se absterem de trabalhos servis", determinação seguido à risca e de bom grado pelos tortosendenses, no que respeita à Ascensão, que era considerado "um dia santo de muito respeito, dia grande, dia do mais rigoroso descanso e respeito especialmente pela Hora". Esta  representava a hora de Nosso Senhor subir ao céu, aqui celebrada das dez às onze horas da manhã, durante a qual não se podia fazer absolutamente nada, pois que "até as folhas das oliveiras se punham em cruz". Era o momento em que, de uma maneira muito especial, se manifestariam os poderes sagrados.

E os mais velhos para incutirem nos mais novos "esse respeito" contavam-lhes a seguinte história: "Em dia de quinta-feira de Ascensão um homem foi trabalhar para o campo. Um amigo que o viu passar chamou-lhe a atenção, mas ele não se importou. Então quando chegou a Hora, ao mesmo tempo que ele levantou a enxada fez-se fogo e o homem morreu, logo ali, todo queimado".

Na igreja paroquial, pelas dez horas havia Missa solene, com a celebração da Hora, considerada como propícia, na qual, de uma forma muito particular, os poderes mágicos se manifestavam e podiam adquirir. Como símbolo da subida, "deitavam-se, então, na igreja, as andorinhas  apanhadas de véspera pelos rapazes e cujas patitas ou caudas haviam sido enfeitadas com laços cor-de-rosa", gerando-se, assim, na Igreja, momentos de muita alegria e muito apreciados pelos jovens e pela criançada, pois ao devolver-se a liberdade às avezinhas, estas procuravam a todo o custo sair da Igreja "o que não era lá muito fácil". Ao mesmo tempo vinha o senhor Prior, Igreja abaixo, e atirava, para um e outro lado, flores e folhinhas de oliveira, que haviam sido previamente benzidas e que o sacristão trazia numa bandeja. E, porque se acreditava na virtude dessas flores, os presentes apanhavam-nas e traziam-nas, para casa, para se protegerem, especialmente, quando houvesse trovoada.
 

A Festa a Nossa Senhora


Para dar "mais pompa e luzimento" à Festa de Nossa Senhora dos Remédios constituiu-se, cerca de 1940, uma Comissão que   se compunha  de um Juiz, um Tesoureiro, Gerentes e outros colaboradores e durante vários anos não a mes, a sofreu grandes alterações. Tinha a seu cargo, toda a organização da Festa e, ainda, um trabalho muito cuidadoso, o da "actualização automática do Caderno dos Mordomos e Mordomas de Nossa Senhora": havia a preocupação de inscrever imediatamente as crianças que nasciam ou aqueles outros que vinham de novo para Tortosendo, sendo assim nomeados mordomos ou mordomas, chegando-se, a 231 e 188, respectivamente, num total de 419, número bastante representativo. Entretanto, já perto da Festa, a Comissão enviava-lhes uma carta-circular, apelando à sua generosidade, de modo a angariar mais fundos.
Alguns dias antes, era Nossa Senhora trazida da sua ermida, sem procissão, até à Igreja Paroquial, onde o andor era, então, enfeitado com com flores artificiais, sedas e cetins nas cores branca e azul, os quais haviam sido cuidadosamente guardados de um ano para o outro.

E era imediatamente a seguir à celebração da Missa da Hora que se dava início à única Procissão, com as imagens de Nossa Senhora e de S.José. Abriam-na dois altos e pesados estandartes, um de Nossa Senhora dos Remédios e outro do Santíssimo, cada um deles levado por um homem bem possante, codjuvado por mais dois companheiros que, segurando em cordas que pendiam lateralmente do alto, os ajudavam a equilibrar,  todos eles envergando as opas pertencentes à Comissão, que ficavam ao longo do ano à guarda do Juiz. Os anjos espalhavam-se pela Procissão, mas sempre à frente de Nossa Senhora. Atrás deste andor seguiam pessoas com suas ofertas de: galinhas, coelhos, pombos, pães-de-ló que "eram dadas pelas pessoas que viviam bem e por todas as que faziam promessas por doenças, quando os filhos iam para a tropa ou por qualquer  afronta". Também já se cumpriam promessas indo descalço ou levando velas da altura respectiva. "A procissão do dia era, portanto, imponente". Destacavam-se sempre as ofertas da Casa Garrett, "muito bem compostas e, portanto, com um certo valor".

Na Capela havia missa cantada com três padres e sermão e fazia-se a leitura dos nomes dos mordomos e mordomas.

Somente em plena 2ª Guerra, e com a intenção muito especial de se pedir pela paz, é que se resolveu fazer uma Procissão de velas, à noite, na véspera da festa, tendo vindo Nossa Senhora,  em procissão o que aconteceu pela primeira vez, mas veio, afinal, a tornar-se na expressão máxima da devoção a Nossa Senhora. Nessa ocasião, e pela vez primeira, "o andor foi enfeitado com flores naturais (exclusivamente novelos)" que se pediram em várias casas, tendo-se destacado a dádiva do Sr. José Laço. Nesta Procissão as senhoras vinham em duas filas, com velas e terminava com o andor de Nossa Senhora e os homens, em grande número, seguiam atrás cantando.
 

A Espiga


No fim das cerimónias "os romeiros" das terras à volta, alguns dos quais já tinham vindo no dia anterior, "estendiam-se pelo pinhal e campos à volta", acompanhados dos seus cabazes, para poderem almoçar calmamente. De tarde a eles se juntaria também o pessoal de Tortosendo com as respectivas merendas e "só se viam as pessoas a lanchar". 

Entretanto elementos da Comissão iam andando com as ofertas, de grupo em grupo, e leiloavam-nas até que atingissem um valor considerado justo. "E as ofertas lá iam saindo conforme o interesse e as possibilidades das pessoas que estavam por ali a merendar". Os mordomos e mordomas bem como outros devotos deviam dirigir-se à Mesa que funcionava, num anexo na da Capela para entregarem as suas dádivas. Em troca receberiam uma estampa de nossa Senhora ou mesmo um terço, tudo dependendo do valor da esmola.

Não faltava o tempo para se apanharem as espigas e as flores do campo, para se fazer um ramo (a espiga) que se secaria e ficaria, em casa, de um ano para o outro, acreditando-se, igualmente, nos seus efeitos benfazejos sobre a fortuna e a fartura. A virtude manifestar-se-ia, finalmente, sobre um pão, a guardar dentro de um saco o qual se conservaria incorrupto (sinal da própria virtude) até ao ano seguinte para que da sua conservação resultasse a abundância de pão. Nesta altura seria partido aos bocadinhos e cada membro da família comeria um, costumes (o da espiga e o de conservar o pão) que ainda se mantêm vivos.

Quando deixou de ser dia santo as pessoas ainda iam à tarde para o local de N.S. dos Remédios com as merendas, costume que ainda se não perdeu de todo.

Parece, pois, poder concluir-se: "as pessoas distinguiam bem a festividade da Ascensão da de N. Senhora dos Remédios, que a segunda não retirava importância à primeira,muito menos esvaziar-se o sentido da Ascensão", pois sucediam-se, ao longo do dia, de uma forma harmoniosa as cerimónias religiosas da liturgia cristã próprias de cada uma delas, às quais, no caso da Ascensão, andavam associados certas práticas tradicionais de carácter mágico-religioso e com um respeito e convicções tais que Cristo se sentiria, por certo, muito honrado com as atenções dispensadas a Sua Mãe.
 

Testemunho entusiasta de D. Maria Lídia Proença, que por sua vez recolheu os testemunhos de: D. Maria Luísa Mendes Dias,  69 anos, D.Judite Duarte Ferrão,  D.Maria Patrocínia da Silva Mendes, 80 infelizmente já falecida e ainda do Sr. A.C.S.
Testemunho de Francisco Teófilo.
 
 

Adélia Mineiro - Boletim da LAT (nº 14 - 2º trimestre 1995)


 

actualizado em: 11 de Maio de 2005